E encontramos também em Dia do Mar exemplos que nos dão conta do modo como a organização estrófica revela o movimento, visível numa ordem gradual. Veja-se o poema “O jardim” composto de três estrofes: a primeira de quatro versos, a segunda de seis e a última de nove versos. Os desalinhos reflectem-se homologicamente no modo como os versos dão conta do envolvimento do sujeito poético no bailado. Conforme se avança na leitura, as estrofes crescem. À medida que Maio avança, com ele avança o bailado mas também os desalinhos («os fantásticos desalinhos / Do meu bem e do meu mal»), que são simultaneamente as dobras dos versos («E no seu bailado levada / Pelo jardim deliro e divago, /…)».
Nos três livros publicados na década de 1950 (Coral, No Tempo Dividido, Mar Novo), retomam-se muitos dos aspectos associados à dança, observados nos dois livros anteriores, como a atmosfera diáfana e inapreensível, associada ao forte poder sugestivo das composições; e, como nos primeiros livros, continuamos a deparar com o segredo, a perda, a ausência, o desastre – tudo o que é inquietação e que não desaparecerá na fase mais solar. Assinale-se, no entanto, o profundo sentido vitalista nas referências à dança, que impõe frequentemente uma vivência liberta: a exaltação do mar e da luz, mesmo quando a morte está presente no vivo.
Destaco em Mar Novo, de 1958, livro que fecha um ciclo, outro verso que se impõe como legenda: «Aérea e dispersa eu dançava», palavras que recortam, em sentido forte, a figura biográfica, e reconduzem aos retratos da personagem descrita por escritores e amigos conviventes como Miguel Torga, no romance Vindima, Eduardo Lourenço ou Agustina. O poema intitula-se «Dia» e noutra estrofe retomam-se ecos deste verso, reafirmando a equivalência entre dançar e viver (“Aérea e dispersa eu vivia /No colo das viagens que inventava”).
Sophia é vista como sílfide, numa identificação proposta por Eduardo Lourenço, quando fala da poesia etérea, «espécie de voo sem matéria» (Antologia, Moraes, 1978); ou como nereide, convocada noutro lugar, ao falar da «criatura à parte, etérea, alheada, a futura ‘nereide’ por Pascoaes invocada» (Público, 10 de Julho de 2004). Podemos falar de Sophia como grega, musa, deusa, bailarina. Em poesia e em vida, secretos e precisos nomes a rodeiam. Da exigência frontal, da precisão e clareza, que moldam a sua personalidade e o seu universo, nasce um tom livre que é a libertação das palavras, a dança dos versos. Vejamos o que diz Sophia, em entrevista datada de 2000: «Eu acho que o melhor momento da escrita do poema é quando as pessoas começam a sentir as palavras moverem-se sozinhas» [9]. Agustina capta o retrato em movimento: «Penso nela como poeta grande que é e na fuga, no sentido musical, que foi a sua vida» (Estudos em homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, Faculdade de Letras da U. do Porto, 2005). A dança e o fazer poético estão, em Sophia, intimamente interligados. A dança e as sílabas. Na resposta a uma entrevista feita por Alexandra Lucas Coelho, sobre o diálogo com o poeta João Cabral de Melo Neto, Sophia diz o seguinte: «‘Mas não falávamos de Deus, nunca falámos de Deus’. De que falavam? Com lenta precisão, Sophia resume: ‘De ciganos, de bailarinas e de sílabas’». [10]