Num impressivo depoimento, Richard Zenith dá conta de uma conversa com Sophia, em 2001. Agora a impossibilidade de dançar faz com que o gesto se projecte no movimento dos dedos que fazem oscilar as pétalas das rosas na jarra: «Olhem como dançam!», diz Sophia. A referência à dança, no passado, que já tinha ocorrido em outros depoimentos, é aqui absolutamente iluminadora: «Quando era mais jovem eu dançava, sozinha em casa, os versos que escrevia – sabia?» (Relâmpago, nº 9, Outubro de 2001).
A imagem da poeta que dança os seus próprios poemas tem reflexos dignos de nota que se prendem com a assunção romântica do viver em estado de poesia, mas também com o profundo sentido rítmico que anima toda a sua obra.
Mais do que a prática obsessiva do poeta artesão, que de edição para edição incessantemente refaz os versos publicados, apurando-os em novas e irreconhecíveis versões (e ainda que no processo de composição da poeta exista esse apuro formal muito vivo), na sua obra vamos encontrar sobretudo a dominância de uma prática que pressupõe mudanças, trânsitos, deslocações, que se prendem com movimentações de outra ordem: a recorrência de processos de montagem, em especial nas contínuas colagens e retomas, em cortes ou acrescentos, de versos ou de poemas intocados.
São muitos os movimentos que captam a livre e intensa movência coreográfica. Desde o início, o ritmo está ligado a uma particular atenção às sonoridades, às ressonâncias do poema (a este aspecto Sophia referiu-se com frequência); mas decorre igualmente de um admirável manuseio da variedade e diversidade da disposição estrófica. Importa lembrar o modo como nos poemas dos primeiros livros se organizam núcleos, como as estrofes se fecham em unidades, como os versos seguem uma linha melódica que desemboca na pontuação final. E importa lembrar como progressivamente se solta a respiração do poema até ao apagamento da pontuação. Por isso, em Sophia, é preciso ver completamente para ouvir, e ouvir completamente para ver. Uma ordem criativa e libertadora move o poema. O ritmo, como sopro invisível da música que anima o poema, ao lado da precisão escultórica, proporciona o equilíbrio (o recorte clássico) que alimenta o fascínio interminável que esta poesia continua a suscitar.
Na poesia de Sophia, as Ménades dançam. Como no «combate esculpido nas métopas do templo» («Um poeta Clássico», Geografia ), como no «friso arcaico» (Dual), onde «medida amor e fúria se combinam», nesta poesia revela-se tensivamente a vida e o seu profundo sentido rítmico. É essa a dança que a poeta dança inteira diante de si: a dança do ser.